Dr. Pablo Jordão · Médico Urologista · CRM-RJ 52109371-1 · RQE 50947

Varicocele e fertilidade masculina: o que se sabe hoje

Por Dr. Pablo Jordão · CRM-RJ 52109371-1 · RQE 50947 · 29 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Mesa de consultório com estetoscópio e ilustração de vasos sanguíneos

Conteúdo informativo; não substitui consulta médica.

A varicocele é a dilatação das veias do plexo pampiniforme, a rede venosa que drena o sangue dos testículos. É uma condição frequente: estima-se que esteja presente em cerca de 15% dos homens da população geral e em até 35% a 40% dos homens avaliados por infertilidade primária, proporção que pode ser ainda maior na infertilidade secundária. Apesar de comum, nem toda varicocele causa problemas, e entender essa diferença é essencial para uma decisão terapêutica adequada.

Por que a varicocele pode interferir na fertilidade?

Os testículos funcionam melhor em temperatura alguns graus abaixo da temperatura corporal. Quando as veias estão dilatadas e há refluxo de sangue, ocorre aumento da temperatura local, estase venosa e maior estresse oxidativo. Esses fatores podem prejudicar a espermatogênese (produção de espermatozoides), reduzir a motilidade, alterar a morfologia e aumentar a fragmentação do DNA espermático. Em alguns homens, há também redução do volume testicular e impacto na produção de testosterona.

A maior parte das varicoceles ocorre do lado esquerdo, por particularidades anatômicas da drenagem da veia testicular esquerda. Varicoceles bilaterais também são relativamente comuns, e uma varicocele isolada à direita, sobretudo se de aparecimento súbito, merece investigação adicional.

Sintomas

Muitos homens não têm sintoma algum, e a varicocele é identificada apenas durante a investigação de infertilidade. Quando presentes, as queixas mais comuns são sensação de peso ou desconforto escrotal, que tende a piorar ao fim do dia, após longos períodos em pé ou com esforço físico. Em varicoceles volumosas, é possível perceber as veias dilatadas ao toque, descritas classicamente como um "saco de vermes".

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico é essencialmente clínico, por meio do exame físico realizado com o paciente em pé, em ambiente aquecido, incluindo a manobra de Valsalva. As varicoceles são classificadas em grau I (palpáveis apenas com Valsalva), grau II (palpáveis sem Valsalva) e grau III (visíveis a olho nu).

A ultrassonografia com Doppler da bolsa escrotal é útil quando o exame físico é inconclusivo ou para avaliar volume testicular, mas as diretrizes da American Urological Association (AUA) e da European Association of Urology (EAU) alertam que varicoceles subclínicas (detectadas apenas pelo exame de imagem, não palpáveis) geralmente não devem ser tratadas com finalidade de fertilidade, pois não há evidência consistente de benefício.

Na avaliação do homem com desejo reprodutivo, a varicocele nunca deve ser analisada isoladamente. O espermograma (idealmente ao menos duas amostras), a dosagem hormonal (FSH, LH, testosterona) e, em casos selecionados, o teste de fragmentação do DNA espermático complementam a investigação. Também é fundamental considerar a idade e a reserva ovariana da parceira, pois isso influencia o tempo disponível para aguardar resultados de um tratamento.

Quando o tratamento é considerado?

De acordo com as diretrizes da AUA/ASRM sobre infertilidade masculina e da EAU, o tratamento da varicocele pode ser considerado em homens que tentam engravidar com a parceira quando há:

Homens com espermograma normal, ou com varicocele subclínica, em geral não se beneficiam da correção com objetivo reprodutivo. Em adolescentes, a indicação leva em conta outros critérios, como diferença de volume entre os testículos e acompanhamento seriado.

Há ainda situações específicas em discussão na literatura, como homens com fragmentação elevada do DNA espermático ou com azoospermia não obstrutiva e varicocele palpável, nos quais a correção pode ser avaliada de forma individualizada.

Como é feito o tratamento

A técnica mais estudada é a varicocelectomia microcirúrgica subinguinal, realizada com auxílio de microscópio cirúrgico. Ela permite preservar a artéria testicular e os vasos linfáticos, o que está associado a menores taxas de recidiva e de hidrocele em comparação com técnicas convencionais. Outras opções incluem as abordagens laparoscópica e a embolização percutânea, realizada por radiologia intervencionista; cada uma tem vantagens e limitações que devem ser discutidas com o paciente.

O que esperar após o tratamento

A espermatogênese completa leva aproximadamente 70 a 90 dias. Por isso, eventuais mudanças no espermograma costumam ser avaliadas a partir de três meses após o procedimento, com reavaliação em seis meses. Estudos e meta-análises mostram que, em homens bem selecionados, a correção pode melhorar parâmetros seminais e a fragmentação do DNA, e há dados associando o tratamento a maiores taxas de gestação espontânea. No entanto, a resposta é variável e não há como garantir resultado em um caso específico.

Quando a parceira tem idade mais avançada ou há outros fatores de infertilidade, pode ser mais adequado discutir, em conjunto com a equipe de reprodução assistida, se a correção da varicocele faz sentido ou se o casal deve seguir diretamente para técnicas como a fertilização in vitro. Essa decisão é sempre compartilhada.

Varicocele, testosterona e dor escrotal

Embora o foco mais conhecido seja a fertilidade, a varicocele também pode estar associada à redução da produção de testosterona. Alguns estudos observaram elevação dos níveis hormonais após a correção cirúrgica em homens com hipogonadismo e varicocele clínica, mas as diretrizes ainda não recomendam a cirurgia exclusivamente com esse objetivo fora de contextos selecionados. Da mesma forma, a dor escrotal crônica atribuída à varicocele pode ser uma indicação de tratamento, desde que outras causas de dor tenham sido avaliadas e que o paciente compreenda que a melhora não ocorre em todos os casos.

Varicocele na adolescência

A varicocele costuma surgir na puberdade. Em adolescentes, como o espermograma nem sempre pode ser realizado, o acompanhamento considera principalmente o tamanho dos testículos. A EAU sugere considerar o tratamento quando há redução progressiva do volume do testículo do lado afetado, diferença significativa de volume entre os testículos, sintomas ou alteração seminal confirmada em adolescentes mais velhos. Na ausência desses critérios, o acompanhamento periódico com exame físico e ultrassonografia costuma ser a conduta adequada.

Riscos e recuperação

Como qualquer procedimento, o tratamento da varicocele tem riscos, que devem ser discutidos antes da decisão: hidrocele (acúmulo de líquido ao redor do testículo), recidiva da varicocele, hematoma, infecção da ferida e, raramente, lesão arterial com atrofia testicular. A técnica microcirúrgica apresenta, na literatura, as menores taxas dessas complicações. Na maioria dos casos, o retorno às atividades leves ocorre em poucos dias, com restrição temporária de esforços físicos intensos, conforme orientação médica individual.

Hábitos que também contam

Independentemente da decisão sobre a varicocele, fatores de estilo de vida influenciam a qualidade do sêmen: tabagismo, consumo excessivo de álcool, obesidade, uso de anabolizantes e exposição prolongada ao calor podem piorar os parâmetros seminais. Orientações gerais incluem manter peso adequado, praticar atividade física regular, evitar o tabaco e revisar medicamentos em uso com o médico. Essas medidas não substituem a avaliação especializada, mas fazem parte do cuidado integral do casal.

Perguntas frequentes

A varicocele volta depois de tratada? Pode recidivar, em proporção que varia conforme a técnica; a microcirurgia apresenta as menores taxas descritas.

Toda varicocele precisa ser operada? Não. A maioria dos homens com varicocele tem filhos sem qualquer tratamento; a indicação depende do contexto clínico e reprodutivo.

Pontos principais

Referências

  1. Schlegel PN et al. Diagnosis and Treatment of Infertility in Men: AUA/ASRM Guideline (2020, atualizado 2024).
  2. European Association of Urology (EAU). Guidelines on Sexual and Reproductive Health – Male Infertility, 2024/2025.
  3. Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Recomendações sobre infertilidade masculina.
  4. Agarwal A et al. Efficacy of varicocelectomy in improving semen parameters: new meta-analytical approach. Urology, 2007.

Tem dúvidas sobre este tema? Uma avaliação individual permite entender o seu caso.

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