Infecção urinária no homem: sintomas, causas e quando investigar

Conteúdo informativo; não substitui consulta médica.
A infecção do trato urinário (ITU) é muito mais comum em mulheres, por características anatômicas. Nos homens, a uretra mais longa e as secreções prostáticas funcionam como fatores de proteção. Por isso, quando um homem apresenta infecção urinária, especialmente de repetição, é importante investigar se existe algum fator predisponente.
Tipos de infecção
- Cistite: infecção da bexiga, com ardência ao urinar, aumento da frequência e urgência urinária, dor no baixo ventre e, às vezes, sangue na urina.
- Pielonefrite: infecção que atinge os rins, com febre, calafrios, dor lombar, náuseas e mal-estar.
- Prostatite bacteriana aguda: infecção da próstata com febre, dor perineal, dificuldade para urinar e mal-estar intenso. Exige avaliação rápida.
- Prostatite bacteriana crônica: infecções recorrentes pela mesma bactéria, com sintomas mais leves e persistentes.
- Epididimite e orquiepididimite: inflamação do epidídimo e/ou testículo, com dor e aumento de volume escrotal.
Por que a ITU no homem é considerada "complicada"?
As diretrizes da European Association of Urology (EAU) sobre infecções urológicas consideram que, em homens, a ITU frequentemente envolve a próstata e pode estar associada a alterações estruturais ou funcionais. Por isso, o tratamento costuma ser mais prolongado que na mulher — em geral de 7 a 14 dias, de acordo com o quadro clínico e o antibiótico — e a escolha deve ser orientada por urocultura sempre que possível.
Fatores de risco e causas associadas
- aumento benigno da próstata (hiperplasia prostática) com esvaziamento incompleto da bexiga;
- estreitamento da uretra (estenose);
- cálculos urinários;
- uso de sonda vesical ou procedimentos urológicos recentes;
- diabetes e outras condições que reduzem a imunidade;
- alterações neurológicas que afetam o funcionamento da bexiga;
- infecções sexualmente transmissíveis, especialmente em homens jovens.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico é baseado nos sintomas, no exame físico e em exames de urina: o exame de urina tipo 1 (EAS) e a urocultura com antibiograma, que identifica a bactéria e os antibióticos aos quais ela é sensível. Em homens com sintomas uretrais, secreção ou risco de infecções sexualmente transmissíveis, recomenda-se pesquisa de agentes como Chlamydia trachomatis e Neisseria gonorrhoeae.
Em infecções recorrentes, febris ou com evolução atípica, pode ser necessário investigar com ultrassonografia do aparelho urinário, medida do resíduo urinário após a micção, urofluxometria ou outros exames, conforme a suspeita.
Uso responsável de antibióticos
A resistência bacteriana é um problema crescente de saúde pública, reconhecido pela Organização Mundial da Saúde. A automedicação, o uso de sobras de antibióticos e a interrupção precoce do tratamento contribuem para o surgimento de bactérias resistentes. Por isso, o antibiótico deve ser prescrito por um médico, de preferência após a coleta da urocultura, com dose e duração adequadas.
Algumas classes, como as fluoroquinolonas, embora eficazes na próstata, têm alertas de segurança de agências regulatórias por efeitos adversos em tendões, nervos e aorta, e seu uso deve ser criterioso.
Infecções e fertilidade masculina
Infecções do trato genital masculino, como prostatite, epididimite e algumas infecções sexualmente transmissíveis, podem afetar a fertilidade. Os mecanismos incluem inflamação, aumento do estresse oxidativo, presença de leucócitos no sêmen e, em casos mais graves, obstrução dos ductos que transportam os espermatozoides. A epididimite bilateral, por exemplo, pode deixar sequelas obstrutivas.
A presença de leucócitos aumentados no espermograma (leucocitospermia) pode motivar investigação complementar, mas as diretrizes destacam que nem sempre ela indica infecção, e o uso rotineiro de antibióticos nesses casos sem confirmação deve ser avaliado com cautela.
Prevenção
- manter boa hidratação;
- não adiar a micção por longos períodos;
- tratar condições que dificultam o esvaziamento da bexiga;
- usar preservativo para prevenção de infecções sexualmente transmissíveis;
- controlar doenças como o diabetes.
Quando procurar atendimento imediato
Febre alta, calafrios, dor lombar intensa, impossibilidade de urinar, dor testicular súbita ou piora do estado geral são sinais de alerta e exigem avaliação médica urgente. A dor testicular súbita, em especial, pode corresponder a torção testicular, uma emergência cirúrgica.
Prostatite crônica e dor pélvica
Muitos homens que procuram atendimento com sintomas atribuídos à "prostatite" não têm infecção bacteriana. A síndrome da dor pélvica crônica é caracterizada por dor ou desconforto na região perineal, testicular, peniana ou suprapúbica por pelo menos três meses, frequentemente acompanhada de sintomas urinários e sexuais. Nesses casos, o uso repetido de antibióticos não costuma trazer benefício. O tratamento é multimodal e pode incluir fisioterapia do assoalho pélvico, medicamentos direcionados aos sintomas, manejo do estresse e mudanças de hábitos.
Infecções sexualmente transmissíveis
Em homens sexualmente ativos, sobretudo jovens, sintomas como ardência ao urinar e secreção uretral frequentemente estão relacionados a uretrites causadas por infecções sexualmente transmissíveis. O Ministério da Saúde, por meio do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com IST, orienta a investigação e o tratamento adequados, incluindo a avaliação e o tratamento das parcerias sexuais e a testagem para HIV, sífilis e hepatites virais.
Sangue na urina: um sinal que merece atenção
A presença de sangue na urina (hematúria), visível ou detectada apenas no exame laboratorial, pode ocorrer durante uma infecção urinária. No entanto, ela também pode estar relacionada a cálculos, alterações da próstata e tumores do trato urinário. Por isso, a AUA recomenda que a hematúria seja reavaliada após o tratamento da infecção e, se persistir, investigada conforme o risco de cada paciente, especialmente em fumantes e homens acima dos 40 anos.
Bacteriúria assintomática
Encontrar bactérias na urocultura de um homem sem sintomas nem sempre significa infecção que precise de tratamento. A Infectious Diseases Society of America (IDSA) recomenda, em geral, não tratar a bacteriúria assintomática, exceto em situações específicas, como antes de procedimentos urológicos com risco de sangramento da mucosa. Evitar tratamentos desnecessários reduz efeitos adversos e o risco de resistência bacteriana.
Perguntas frequentes
Beber muita água cura a infecção urinária? A hidratação ajuda na prevenção, mas não substitui o tratamento quando indicado.
Posso repetir o antibiótico que usei da última vez? Não é recomendado sem avaliação médica; a bactéria e a sensibilidade podem ser diferentes.
Pontos principais
- A ITU no homem é menos comum e geralmente merece investigação.
- A urocultura orienta o tratamento adequado.
- Infecções genitais podem afetar a fertilidade.
- Evite automedicação: ela favorece a resistência bacteriana.
Referências
- European Association of Urology (EAU). Guidelines on Urological Infections, 2024/2025.
- Anger J et al. Recurrent Uncomplicated Urinary Tract Infections in Women: AUA/CUA/SUFU Guideline, 2019/2022 (referência para princípios de diagnóstico e uso de antibióticos).
- World Health Organization. Global antimicrobial resistance and use surveillance system (GLASS) report.
- Sociedade Brasileira de Urologia; Sociedade Brasileira de Infectologia – recomendações sobre ITU.
- Nicolle LE et al. Clinical Practice Guideline for the Management of Asymptomatic Bacteriuria: IDSA, 2019.
- Ministério da Saúde. PCDT para Atenção Integral às Pessoas com IST, 2022.
- Barocas DA et al. Microhematuria: AUA/SUFU Guideline, 2020.
Tem dúvidas sobre este tema? Uma avaliação individual permite entender o seu caso.
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