Dr. Pablo Jordão · Médico Urologista · CRM-RJ 52109371-1 · RQE 50947

Alterações genéticas e infertilidade masculina: quando investigar

Por Dr. Pablo Jordão · CRM-RJ 52109371-1 · RQE 50947 · 29 de outubro de 2026 · 5 min de leitura

Ilustração de dupla hélice de DNA em dourado sobre fundo azul-marinho

Conteúdo informativo; não substitui consulta médica.

Estima-se que fatores genéticos estejam envolvidos em cerca de 15% a 30% dos casos de infertilidade masculina, especialmente nas formas mais graves, como a azoospermia e a oligozoospermia severa. Identificar uma causa genética ajuda a entender o diagnóstico, orientar o tratamento, estimar as chances de recuperação de espermatozoides e oferecer aconselhamento sobre o risco de transmissão aos filhos.

Quando os exames genéticos são indicados

As diretrizes da AUA/ASRM e da EAU recomendam a investigação genética em situações específicas:

Síndrome de Klinefelter (47,XXY)

É a alteração cromossômica mais comum em homens inférteis, presente em cerca de 1 a cada 500–1.000 homens e em aproximadamente 10% a 15% dos homens com azoospermia não obstrutiva. Muitos não são diagnosticados até a investigação de infertilidade. Características frequentes incluem testículos pequenos e firmes, FSH e LH elevados e, em muitos casos, testosterona baixa.

Apesar da azoospermia na maioria dos casos, a micro-TESE pode encontrar espermatozoides em uma parcela significativa dos homens com Klinefelter — séries publicadas relatam taxas em torno de 40% a 50%, com variação entre centros e conforme a idade. Esses espermatozoides podem ser usados em fertilização in vitro com ICSI. Quando há desejo de fertilidade, é importante evitar a reposição de testosterona antes de planejar o tratamento, pois ela pode reduzir ainda mais a produção espermática.

Microdeleções do cromossomo Y

O cromossomo Y contém regiões chamadas AZF (fator de azoospermia), divididas em AZFa, AZFb e AZFc, com genes essenciais para a produção de espermatozoides. Microdeleções nessas regiões estão presentes em aproximadamente 5% a 10% dos homens com azoospermia ou oligozoospermia grave.

Como a alteração está no cromossomo Y, ela é transmitida a todos os filhos do sexo masculino concebidos com esses espermatozoides, que provavelmente também terão alteração da fertilidade. O aconselhamento genético é fundamental.

Mutações do gene CFTR e ausência dos deferentes

O gene CFTR está relacionado à fibrose cística. Homens portadores de determinadas mutações podem nascer sem os ductos deferentes (ausência congênita bilateral dos deferentes, ou CBAVD), condição presente em cerca de 1% a 2% dos homens inférteis. A produção de espermatozoides nos testículos geralmente é normal, e a recuperação cirúrgica para uso em ICSI costuma ser possível.

Nesses casos, recomenda-se testar também a parceira para mutações do CFTR, pois, se ambos forem portadores, há risco de ter um filho com fibrose cística. A ausência unilateral do deferente pode estar associada a alterações renais, e uma ultrassonografia de rins pode ser indicada.

Outras alterações

Aconselhamento genético

O resultado de um exame genético não deve ser entregue sem explicação. O aconselhamento envolve esclarecer o significado do achado, as opções de tratamento, os riscos para a descendência e alternativas como o teste genético pré-implantacional (PGT), em conjunto com a equipe de reprodução assistida e, quando indicado, com um médico geneticista.

O que esperar dos exames

Os exames genéticos mais usados na infertilidade masculina são realizados com amostra de sangue. O cariótipo avalia o número e a estrutura dos cromossomos e costuma levar algumas semanas para ficar pronto, pois depende de cultura de células. A pesquisa de microdeleções do cromossomo Y é feita por técnicas de biologia molecular. Já a análise do gene CFTR pode envolver painéis de mutações mais frequentes ou sequenciamento do gene, conforme a indicação. A interpretação deve sempre considerar o quadro clínico e os demais exames.

Klinefelter: além da fertilidade

A síndrome de Klinefelter não se limita à infertilidade. Homens com essa condição podem apresentar maior risco de deficiência de testosterona, osteoporose, síndrome metabólica, diabetes e alterações de humor e aprendizagem. Por isso, o diagnóstico abre espaço para um acompanhamento de saúde mais amplo, frequentemente em conjunto com endocrinologista. O planejamento reprodutivo, incluindo o momento de uma eventual busca de espermatozoides, deve ser discutido de forma integrada ao cuidado hormonal.

Fertilização in vitro e testes no embrião

Quando o casal recorre à fertilização in vitro com ICSI, é possível discutir com a equipe de reprodução assistida o teste genético pré-implantacional (PGT), que analisa embriões antes da transferência. Ele pode ser considerado, por exemplo, quando há translocação cromossômica em um dos parceiros ou quando ambos são portadores de mutações do CFTR. As indicações, limitações e implicações éticas desses testes devem ser discutidas com o casal, respeitando as normas do Conselho Federal de Medicina para reprodução assistida.

Quando a busca de espermatozoides não é possível

Em algumas situações, como deleções completas de AZFa ou AZFb, a chance de encontrar espermatozoides é praticamente nula. Nesses casos, o aconselhamento inclui informações claras sobre as alternativas disponíveis para o projeto de parentalidade, como a utilização de sêmen de doador ou a adoção. Essas decisões são pessoais e merecem acolhimento, tempo e, quando desejado, apoio psicológico.

Perguntas frequentes

Se tenho uma alteração genética, meus filhos também terão? Depende da alteração. Algumas, como as microdeleções do Y, são transmitidas aos filhos homens; outras dependem também da parceira. O aconselhamento genético esclarece cada caso.

Todo homem infértil precisa de exame genético? Não. Os testes são indicados conforme critérios definidos pelas diretrizes.

Pontos principais

Referências

  1. Schlegel PN et al. Diagnosis and Treatment of Infertility in Men: AUA/ASRM Guideline, 2020/2024.
  2. EAU Guidelines on Sexual and Reproductive Health – Male Infertility (Genetic disorders), 2024/2025.
  3. Krausz C, Riera-Escamilla A. Genetics of male infertility. Nat Rev Urol, 2018.
  4. Corona G et al. Sperm recovery and ICSI outcomes in Klinefelter syndrome: a systematic review and meta-analysis. Hum Reprod Update, 2017.
  5. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.320/2022 (normas éticas para reprodução assistida).

Tem dúvidas sobre este tema? Uma avaliação individual permite entender o seu caso.

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