Dr. Pablo Jordão · Médico Urologista · CRM-RJ 52109371-1 · RQE 50947

Testosterona e reposição hormonal masculina: indicações e cuidados

Por Dr. Pablo Jordão · CRM-RJ 52109371-1 · RQE 50947 · 29 de outubro de 2026 · 5 min de leitura

Tubos de coleta de sangue ao lado de prancheta com laudo

Conteúdo informativo; não substitui consulta médica.

A testosterona é o principal hormônio sexual masculino. Ela participa da libido, da função erétil, da manutenção da massa muscular e óssea, da distribuição de gordura, da produção de glóbulos vermelhos, do humor e da energia. Com o envelhecimento, os níveis tendem a cair gradualmente, mas nem toda redução é uma doença. O tema exige cuidado, pois a reposição hormonal tem indicações precisas e efeitos importantes, inclusive sobre a fertilidade.

O que é deficiência de testosterona (hipogonadismo)

Segundo a diretriz da American Urological Association (AUA, 2018, atualizada), o diagnóstico de deficiência de testosterona exige a combinação de sintomas compatíveis e níveis baixos confirmados. A AUA sugere como referência uma testosterona total abaixo de 300 ng/dL, em ao menos duas dosagens, colhidas pela manhã e em jejum. A EAU adota critérios semelhantes. Um exame isolado baixo, sem sintomas, não estabelece o diagnóstico.

Os sintomas mais característicos incluem redução da libido, piora da ereção, diminuição das ereções matinais, cansaço, perda de massa muscular, aumento da gordura abdominal, alterações de humor e dificuldade de concentração. Muitos desses sintomas são inespecíficos e podem ter outras causas, como distúrbios do sono, depressão, doenças da tireoide ou uso de medicamentos.

Tipos de hipogonadismo

Por isso, além da testosterona total, a avaliação costuma incluir LH, FSH, prolactina, hemograma (hematócrito), PSA conforme a idade e, em casos selecionados, testosterona livre ou SHBG.

Mudanças de estilo de vida

Em muitos homens, especialmente aqueles com obesidade, síndrome metabólica ou apneia do sono, a perda de peso, a atividade física regular, o sono adequado e o tratamento das doenças associadas podem elevar os níveis de testosterona e melhorar os sintomas. Essas medidas são parte essencial de qualquer plano de cuidado.

A reposição de testosterona e a fertilidade

Este é um ponto fundamental e muitas vezes desconhecido: a testosterona exógena (gel, injeções, implantes) suprime a produção de espermatozoides. Ao administrar testosterona, o cérebro reduz a liberação de LH e FSH, os hormônios que estimulam os testículos. O resultado pode ser redução importante da contagem de espermatozoides e até azoospermia.

As diretrizes da AUA e da EAU são claras: homens que desejam ter filhos no presente ou em um futuro próximo não devem usar testosterona como tratamento. Nesses casos, podem ser consideradas alternativas que estimulam a produção do próprio organismo, como citrato de clomifeno, inibidores da aromatase ou gonadotrofinas (hCG e FSH), de acordo com o perfil do paciente — muitas dessas indicações são consideradas "off-label" e exigem acompanhamento especializado.

O mesmo raciocínio vale para esteroides anabolizantes usados com fins estéticos ou de desempenho, cujo uso sem indicação médica é desaconselhado pelas sociedades médicas e pelo Conselho Federal de Medicina, devido aos riscos cardiovasculares, hepáticos, psiquiátricos e reprodutivos.

Quando a reposição é indicada

Em homens com diagnóstico confirmado e sem desejo reprodutivo, a reposição pode melhorar libido, função sexual, humor, densidade óssea e composição corporal. Antes de iniciar, avaliam-se contraindicações, como câncer de próstata ou de mama não tratado, hematócrito elevado, insuficiência cardíaca descompensada e eventos cardiovasculares recentes.

O estudo TRAVERSE (2023), com mais de 5.000 homens com hipogonadismo e risco cardiovascular elevado, não mostrou aumento de eventos cardiovasculares maiores com a reposição em comparação ao placebo, o que trouxe mais segurança ao tema — mas reforçou a importância de acompanhamento.

Acompanhamento

Durante o tratamento, recomenda-se monitorar periodicamente a testosterona, o hematócrito, o PSA e a resposta clínica. O objetivo é manter níveis dentro da faixa fisiológica, evitando doses excessivas. A decisão de iniciar, manter ou suspender a reposição deve ser individualizada.

Formas de reposição disponíveis

Quando a reposição é indicada, há diferentes formulações, cada uma com características próprias: géis transdérmicos de aplicação diária, injeções intramusculares de ação curta ou prolongada e, em alguns países, implantes subcutâneos e formulações orais. A escolha considera preferências do paciente, perfil de efeitos adversos, estabilidade dos níveis hormonais e custo. Com os géis, é importante evitar o contato da pele com mulheres e crianças, pela possibilidade de transferência do hormônio.

Efeitos adversos possíveis

Os efeitos mais frequentes incluem aumento do hematócrito (que, se excessivo, eleva o risco de trombose), acne e oleosidade da pele, retenção de líquidos, aumento das mamas, piora de apneia do sono não tratada e redução do volume testicular. A reposição não causa câncer de próstata segundo as evidências atuais, mas pode estimular um tumor já existente; por isso, o rastreamento prostático adequado à idade faz parte do acompanhamento. Esses riscos reforçam que a testosterona deve ser usada apenas com indicação e monitoramento médicos.

Testosterona e envelhecimento

Com o passar dos anos, os níveis de testosterona caem em média cerca de 1% ao ano a partir dos 30 a 40 anos, mas a maioria dos homens mantém valores dentro da faixa normal. Por isso, o termo "andropausa" é considerado impreciso: diferentemente da menopausa, não há uma interrupção abrupta da função hormonal. O que se observa com mais frequência é a associação entre testosterona baixa e condições como obesidade, diabetes e doenças crônicas, que devem ser tratadas como parte do cuidado.

Testosterona sem indicação: um alerta

O uso de testosterona e outros hormônios com finalidade estética, de ganho de massa muscular ou de "desempenho" em homens com níveis normais não é recomendado. A Resolução CFM nº 2.333/2023 veda a prescrição de terapias hormonais com esteroides androgênicos e anabolizantes com finalidade estética, de ganho de massa muscular ou de melhora do desempenho esportivo. Além dos riscos cardiovasculares e hepáticos, o uso pode causar infertilidade duradoura.

Perguntas frequentes

Posso usar testosterona e tentar engravidar ao mesmo tempo? Em geral, não é recomendado, pois a testosterona exógena reduz a produção de espermatozoides. Existem alternativas que devem ser avaliadas com o especialista.

A reposição precisa ser para sempre? Depende da causa. Em alguns casos de hipogonadismo funcional, o tratamento das condições associadas pode melhorar os níveis hormonais.

Pontos principais

Referências

  1. Mulhall JP et al. Evaluation and Management of Testosterone Deficiency: AUA Guideline, 2018 (amended 2024).
  2. EAU Guidelines on Sexual and Reproductive Health – Male Hypogonadism, 2024/2025.
  3. Lincoff AM et al. Cardiovascular Safety of Testosterone-Replacement Therapy (TRAVERSE). N Engl J Med, 2023.
  4. Sociedade Brasileira de Urologia; Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – posicionamentos sobre terapia com testosterona.
  5. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.333/2023 (terapias hormonais com esteroides androgênicos e anabolizantes).

Tem dúvidas sobre este tema? Uma avaliação individual permite entender o seu caso.

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