Azoospermia e alterações do espermograma: como interpretar e investigar

Conteúdo informativo; não substitui consulta médica.
O espermograma é o exame inicial na avaliação da fertilidade masculina. Ele analisa características do sêmen, como volume, concentração, motilidade e morfologia dos espermatozoides. Um resultado alterado não significa, por si só, que o homem é infértil, mas é um sinal de que a investigação deve continuar. Este texto explica os principais termos e como a avaliação costuma ser conduzida.
Como o exame deve ser coletado
A Organização Mundial da Saúde (OMS), em seu manual de 2021 (6ª edição), recomenda abstinência ejaculatória de 2 a 7 dias, coleta por masturbação em frasco apropriado e análise em laboratório com controle de qualidade. Como os parâmetros seminais variam naturalmente de uma amostra para outra, um único exame alterado deve ser repetido, idealmente com intervalo de algumas semanas. Febre, doenças agudas e alguns medicamentos podem alterar temporariamente o resultado.
Principais termos
- Oligozoospermia: concentração ou número total de espermatozoides abaixo dos limites de referência.
- Astenozoospermia: redução da motilidade progressiva.
- Teratozoospermia: proporção reduzida de espermatozoides com morfologia normal.
- Criptozoospermia: espermatozoides ausentes no exame direto, mas encontrados após centrifugação da amostra.
- Azoospermia: ausência completa de espermatozoides no ejaculado, confirmada após centrifugação em pelo menos duas amostras.
- Aspermia: ausência de ejaculado.
É importante lembrar que os valores de referência da OMS representam o percentil inferior de homens que conseguiram gestação em até 12 meses. Eles não são um "ponto de corte" absoluto entre fértil e infértil; homens com valores abaixo da referência podem ter filhos, e homens com valores normais podem enfrentar dificuldades.
Azoospermia: obstrutiva ou não obstrutiva
A azoospermia está presente em aproximadamente 1% dos homens e em 10% a 15% dos homens inférteis. Ela é dividida em dois grandes grupos:
Azoospermia obstrutiva: a produção de espermatozoides nos testículos está preservada, mas há bloqueio no caminho (epidídimo, ducto deferente ou ductos ejaculatórios). Causas incluem vasectomia, infecções prévias, cirurgias inguinais e a ausência congênita bilateral dos ductos deferentes, frequentemente associada a mutações no gene CFTR (o mesmo da fibrose cística).
Azoospermia não obstrutiva: há falha na produção dos espermatozoides. Pode estar relacionada a alterações genéticas (como síndrome de Klinefelter e microdeleções do cromossomo Y), criptorquidia, quimioterapia ou radioterapia, uso de esteroides anabolizantes, alterações hormonais e causas desconhecidas.
Como é a investigação
As diretrizes da AUA/ASRM e da EAU recomendam que todo homem com espermograma alterado seja avaliado por um especialista em saúde reprodutiva masculina. A investigação inclui:
- História clínica detalhada: tempo de tentativa, gestações prévias, doenças, cirurgias, medicamentos, uso de testosterona ou anabolizantes, exposição ocupacional, tabagismo, álcool e hábitos de vida.
- Exame físico: volume e consistência dos testículos, presença dos ductos deferentes, epidídimos e varicocele.
- Avaliação hormonal: FSH, LH, testosterona total e, conforme o caso, prolactina e estradiol.
- Exames genéticos: cariótipo e pesquisa de microdeleções do cromossomo Y em homens com azoospermia não obstrutiva ou oligozoospermia grave (geralmente abaixo de 5 milhões/mL); pesquisa de mutações do CFTR quando há ausência de deferentes.
- Exames de imagem: ultrassonografia escrotal ou transretal em situações específicas.
Possibilidades de tratamento
O tratamento depende da causa. Algumas condições são potencialmente reversíveis, como a interrupção do uso de anabolizantes, a correção de varicocele clínica, o tratamento de alterações hormonais como o hipogonadismo hipogonadotrófico e a mudança de hábitos de vida.
Na azoospermia obstrutiva, pode-se considerar a reconstrução microcirúrgica (como a reversão de vasectomia) ou a recuperação de espermatozoides diretamente do epidídimo ou testículo para uso em fertilização in vitro com ICSI.
Na azoospermia não obstrutiva, a técnica de referência para busca de espermatozoides é a micro-TESE (microdissecção testicular), em que o testículo é examinado ao microscópio cirúrgico em busca de áreas com produção preservada. As taxas de recuperação relatadas na literatura variam amplamente, em média em torno de 40% a 60%, dependendo da causa. Por isso, a avaliação prévia, o aconselhamento genético e o alinhamento com a equipe de reprodução assistida são etapas fundamentais.
Mais que um exame: um sinal de saúde
Estudos recentes mostram que alterações do espermograma podem estar associadas a outras condições de saúde, incluindo maior risco cardiovascular, metabólico e de alguns tipos de câncer, como o testicular. Assim, a avaliação do homem infértil também é uma oportunidade de cuidar da saúde geral.
Fragmentação do DNA espermático e outros testes
Além do espermograma convencional, existem testes complementares que podem ser úteis em situações específicas. O teste de fragmentação do DNA espermático avalia a integridade do material genético dos espermatozoides. A diretriz da EAU sugere considerar esse exame em casais com perdas gestacionais de repetição, falhas de técnicas de reprodução assistida ou infertilidade sem causa aparente. Outros exames, como a pesquisa de anticorpos antiespermatozoide e a análise de leucócitos no sêmen, têm indicações mais restritas e devem ser solicitados conforme o contexto clínico.
Fatores reversíveis que merecem atenção
Parte das alterações do espermograma tem causas que podem ser modificadas. O uso de testosterona ou esteroides anabolizantes é uma causa frequente e muitas vezes subestimada de oligozoospermia grave e azoospermia; a recuperação após a suspensão pode levar meses e nem sempre é completa, o que reforça a importância da avaliação especializada. Outros fatores incluem febre recente, medicamentos (como alguns quimioterápicos, imunossupressores e antiandrogênicos), tabagismo, consumo excessivo de álcool, uso de maconha, obesidade e exposição ocupacional a calor, pesticidas e solventes.
Preservação da fertilidade
Homens que vão iniciar tratamentos que podem comprometer a produção de espermatozoides, como quimioterapia, radioterapia ou algumas cirurgias, devem ser orientados sobre a possibilidade de congelamento de sêmen antes do tratamento. Essa recomendação consta das diretrizes da American Society of Clinical Oncology (ASCO) e da EAU. O congelamento também pode ser discutido em outras situações, como antes de uma vasectomia ou em homens com parâmetros seminais em declínio.
O papel do casal e da equipe
A infertilidade é uma condição do casal. A avaliação masculina deve ocorrer em paralelo à avaliação da parceira, e não apenas depois dela. A comunicação entre urologista e equipe de reprodução assistida permite definir o momento e a estratégia mais adequados, considerando a idade da parceira, o tempo de tentativa e as preferências do casal. Essa integração é um dos pilares do cuidado individualizado.
Perguntas frequentes
Um espermograma alterado significa que não poderei ter filhos? Não necessariamente. O resultado orienta a investigação, e muitas causas têm tratamento ou alternativas.
Quanto tempo leva para ver mudanças no espermograma? Como a produção de espermatozoides leva cerca de três meses, mudanças costumam ser avaliadas após esse período.
Pontos principais
- Um espermograma alterado deve ser repetido e interpretado por especialista.
- A azoospermia é classificada em obstrutiva e não obstrutiva, com causas e abordagens diferentes.
- Exames genéticos são recomendados em casos selecionados.
- Há alternativas terapêuticas, incluindo técnicas microcirúrgicas, avaliadas caso a caso.
Referências
- World Health Organization. WHO laboratory manual for the examination and processing of human semen, 6th ed., 2021.
- Schlegel PN et al. Diagnosis and Treatment of Infertility in Men: AUA/ASRM Guideline, 2020/2024.
- EAU Guidelines on Sexual and Reproductive Health – Male Infertility, 2024/2025.
- Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) – Departamento de Reprodução Humana.
- Oktay K et al. Fertility Preservation in Patients With Cancer: ASCO Clinical Practice Guideline Update. J Clin Oncol, 2018.
Tem dúvidas sobre este tema? Uma avaliação individual permite entender o seu caso.
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