Dr. Pablo Jordão · Médico Urologista · CRM-RJ 52109371-1 · RQE 50947

Azoospermia e alterações do espermograma: como interpretar e investigar

Por Dr. Pablo Jordão · CRM-RJ 52109371-1 · RQE 50947 · 29 de outubro de 2026 · 5 min de leitura

Microscópio e placas de Petri em bancada de laboratório

Conteúdo informativo; não substitui consulta médica.

O espermograma é o exame inicial na avaliação da fertilidade masculina. Ele analisa características do sêmen, como volume, concentração, motilidade e morfologia dos espermatozoides. Um resultado alterado não significa, por si só, que o homem é infértil, mas é um sinal de que a investigação deve continuar. Este texto explica os principais termos e como a avaliação costuma ser conduzida.

Como o exame deve ser coletado

A Organização Mundial da Saúde (OMS), em seu manual de 2021 (6ª edição), recomenda abstinência ejaculatória de 2 a 7 dias, coleta por masturbação em frasco apropriado e análise em laboratório com controle de qualidade. Como os parâmetros seminais variam naturalmente de uma amostra para outra, um único exame alterado deve ser repetido, idealmente com intervalo de algumas semanas. Febre, doenças agudas e alguns medicamentos podem alterar temporariamente o resultado.

Principais termos

É importante lembrar que os valores de referência da OMS representam o percentil inferior de homens que conseguiram gestação em até 12 meses. Eles não são um "ponto de corte" absoluto entre fértil e infértil; homens com valores abaixo da referência podem ter filhos, e homens com valores normais podem enfrentar dificuldades.

Azoospermia: obstrutiva ou não obstrutiva

A azoospermia está presente em aproximadamente 1% dos homens e em 10% a 15% dos homens inférteis. Ela é dividida em dois grandes grupos:

Azoospermia obstrutiva: a produção de espermatozoides nos testículos está preservada, mas há bloqueio no caminho (epidídimo, ducto deferente ou ductos ejaculatórios). Causas incluem vasectomia, infecções prévias, cirurgias inguinais e a ausência congênita bilateral dos ductos deferentes, frequentemente associada a mutações no gene CFTR (o mesmo da fibrose cística).

Azoospermia não obstrutiva: há falha na produção dos espermatozoides. Pode estar relacionada a alterações genéticas (como síndrome de Klinefelter e microdeleções do cromossomo Y), criptorquidia, quimioterapia ou radioterapia, uso de esteroides anabolizantes, alterações hormonais e causas desconhecidas.

Como é a investigação

As diretrizes da AUA/ASRM e da EAU recomendam que todo homem com espermograma alterado seja avaliado por um especialista em saúde reprodutiva masculina. A investigação inclui:

Possibilidades de tratamento

O tratamento depende da causa. Algumas condições são potencialmente reversíveis, como a interrupção do uso de anabolizantes, a correção de varicocele clínica, o tratamento de alterações hormonais como o hipogonadismo hipogonadotrófico e a mudança de hábitos de vida.

Na azoospermia obstrutiva, pode-se considerar a reconstrução microcirúrgica (como a reversão de vasectomia) ou a recuperação de espermatozoides diretamente do epidídimo ou testículo para uso em fertilização in vitro com ICSI.

Na azoospermia não obstrutiva, a técnica de referência para busca de espermatozoides é a micro-TESE (microdissecção testicular), em que o testículo é examinado ao microscópio cirúrgico em busca de áreas com produção preservada. As taxas de recuperação relatadas na literatura variam amplamente, em média em torno de 40% a 60%, dependendo da causa. Por isso, a avaliação prévia, o aconselhamento genético e o alinhamento com a equipe de reprodução assistida são etapas fundamentais.

Mais que um exame: um sinal de saúde

Estudos recentes mostram que alterações do espermograma podem estar associadas a outras condições de saúde, incluindo maior risco cardiovascular, metabólico e de alguns tipos de câncer, como o testicular. Assim, a avaliação do homem infértil também é uma oportunidade de cuidar da saúde geral.

Fragmentação do DNA espermático e outros testes

Além do espermograma convencional, existem testes complementares que podem ser úteis em situações específicas. O teste de fragmentação do DNA espermático avalia a integridade do material genético dos espermatozoides. A diretriz da EAU sugere considerar esse exame em casais com perdas gestacionais de repetição, falhas de técnicas de reprodução assistida ou infertilidade sem causa aparente. Outros exames, como a pesquisa de anticorpos antiespermatozoide e a análise de leucócitos no sêmen, têm indicações mais restritas e devem ser solicitados conforme o contexto clínico.

Fatores reversíveis que merecem atenção

Parte das alterações do espermograma tem causas que podem ser modificadas. O uso de testosterona ou esteroides anabolizantes é uma causa frequente e muitas vezes subestimada de oligozoospermia grave e azoospermia; a recuperação após a suspensão pode levar meses e nem sempre é completa, o que reforça a importância da avaliação especializada. Outros fatores incluem febre recente, medicamentos (como alguns quimioterápicos, imunossupressores e antiandrogênicos), tabagismo, consumo excessivo de álcool, uso de maconha, obesidade e exposição ocupacional a calor, pesticidas e solventes.

Preservação da fertilidade

Homens que vão iniciar tratamentos que podem comprometer a produção de espermatozoides, como quimioterapia, radioterapia ou algumas cirurgias, devem ser orientados sobre a possibilidade de congelamento de sêmen antes do tratamento. Essa recomendação consta das diretrizes da American Society of Clinical Oncology (ASCO) e da EAU. O congelamento também pode ser discutido em outras situações, como antes de uma vasectomia ou em homens com parâmetros seminais em declínio.

O papel do casal e da equipe

A infertilidade é uma condição do casal. A avaliação masculina deve ocorrer em paralelo à avaliação da parceira, e não apenas depois dela. A comunicação entre urologista e equipe de reprodução assistida permite definir o momento e a estratégia mais adequados, considerando a idade da parceira, o tempo de tentativa e as preferências do casal. Essa integração é um dos pilares do cuidado individualizado.

Perguntas frequentes

Um espermograma alterado significa que não poderei ter filhos? Não necessariamente. O resultado orienta a investigação, e muitas causas têm tratamento ou alternativas.

Quanto tempo leva para ver mudanças no espermograma? Como a produção de espermatozoides leva cerca de três meses, mudanças costumam ser avaliadas após esse período.

Pontos principais

Referências

  1. World Health Organization. WHO laboratory manual for the examination and processing of human semen, 6th ed., 2021.
  2. Schlegel PN et al. Diagnosis and Treatment of Infertility in Men: AUA/ASRM Guideline, 2020/2024.
  3. EAU Guidelines on Sexual and Reproductive Health – Male Infertility, 2024/2025.
  4. Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) – Departamento de Reprodução Humana.
  5. Oktay K et al. Fertility Preservation in Patients With Cancer: ASCO Clinical Practice Guideline Update. J Clin Oncol, 2018.

Tem dúvidas sobre este tema? Uma avaliação individual permite entender o seu caso.

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